Hora Certa

domingo, 23 de novembro de 2008

Cabelos dourados. Tomates. Cebolas...


Crônica: Ieda Beltrão



Pare só um instante! Ouço e a frase se repete. Pare só um instante! E se repete...
não quero parar, não quero olhar, não quero ouvir de onde vem. O vento é quente, o sol queima minha pele branca. Sinto vontade de correr, mas não consigo e então, num ímpeto paro e olho para trás. Ele está ali parado, sorrindo, mãos estendidas em minha direção. As pessoas continuam a passar apressadas, não percebem que estamos ali. A pele queima, mas que importa, agora sinto seus olhos, suas mãos... Tento em vão sair daquele estado de torpor que invade meu corpo, minha alma... Olhos profundos, verdes como a noite percorrem meu rosto magro e sofrido. Tento esconder meus cabelos brancos e desalinhados, sufoca minha voz que não sai. Minhas pernas compridas e esqueléticas tremem. Tenho medo de derrubar as compras. Minhas compras? Detergente para banheiro, cera para o piso e tomate para o molho preferido. Deus! Essas são as minhas compras, as compras de todos os dias, de mais de quarenta anos. As mãos que seguram aquelas sacolas cheiram a cebola e alho... sempre... sempre.
Mas agora ele estava ali. Queria pegar minhas mãos de dedos longos-secos-brancos, cheirando a tempero. Ele sorria e eu não conseguia mover meus lábios muito menos sorrir. Meus dentes eram amarelos, estragados, esqueci de cuidá-los, de tratá-los, que importância tinha minha aparência? “Eles” estavam felizes, isso era o que importava.
Quarenta anos! Era muito tempo e agora o tempo havia parado. Deixei as compras caírem devagar, lento... O sol queimava, o peito ardia, a dor enlouquecia minha cabeça e ele continuava a sorrir, lindo, cercado de muita luz. Minhas pernas dobraram e então senti suas mãos segurarem meu corpo cadavérico, infeliz, cheirando a detergente pinho, toucinho de porco (“eles” adoravam, isso era o que importava).
Ouvia sirenes, gritos, mas nada sentia. Apenas seu riso lindo, seu rosto de anjo. Rostos apavorados surgiam em minha frente e eu, depois de quarenta longos anos, sonhando em ser uma grande juíza, uma defensora da justiça, sorri e meu sorriso trouxe uma dor forte, profunda... As lágrimas vieram invadindo meus pobres olhos mortos, limparam, dando passagem à água salgada que caiu sentida na pele enrugada...
Ele segurou meu rosto e devagar passou sua fase lisa, querendo secar aquele mar de dor. Deixei-me cair em seus braços. O peso de quarenta anos vivendo sem amor, proibida de sonhar, culpada por um erro, sufocada dentro de uma casa, de uma vida faziam com que naquele momento o mundo parasse.
Abandonada em seus braços, toquei de leve seus cabelos dourados e assim suspirei aliviada. Não precisava nunca mais fazer a receita de toucinho.

A sirene cortava o silêncio do meio-dia. Uma mulher estava morta na calçada. Derrame, coração? Ninguém sabia. Conhecida? Sim. Aos olhos de todos, uma respeitável e feliz juíza de direito, que após uma condenação de um jovem, desistiu da carreira para se tornar uma feliz dona de casa. A condenação? O jovem? Estudante de psicologia, acusado de estupro. O erro? Descobriu-se que era inocente, mas já era muito tarde, a morte o encontrou na cela fria de um presídio qualquer.
Era belo o jovem inocente de cabelos dourados!

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