Hora Certa

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Essa é para você!



A foto é do Júlio. Meu amor querido, e maior incentivador dessa tattoo.

Lembro como se fosse hoje o dia que ouvi a voz do Caio Fernando Abreu pela primeira vez. Era uma manhã de terça-feira (2003). E foi numa tarde terça-feira (16 de dezembro de 2008) que gravei em minha pela um desenho que um dia ele rabiuscou em um papel. Dizem que sou uma espécie de Caio de suais. Quem me dera! Mas quem sabe um dia eu tenha a coragem que ele teve ao lutar por sua literatura.




A crônica abaixo escrevi em 2003, logo após ouvir a voz de Caio pela primeira vez.


Uma Manhã de Terça... UmaVoz...

O movimento é intenso lá fora, é uma manhã de terça-feira, próxima do carnaval. As pessoas caminham, cada uma pensando em seu trabalho, sua vida, seus problemas. O dia é quente abafado, úmido, pegajoso. Aqueles dias em que a pele gruda, os cabelos arrepiam e os olhos se apagam. Mas para mim existe algo de mágico nesta terça-feira - 25 de fevereiro. Vou ouvir tua voz pela primeira vez. É engraçado não é mesmo Caio? Não conheço tua voz. Posso talvez pensar que já ouvi teu coração, teus sentimentos demonstrados com tanta clareza em crônicas, contos e cartas. O rádio está ligado Caio! Propagandas, entrevistas e nada de tua voz aparecer. Sete anos se passaram de tua morte, mas o mais engraçado é que para mim está vivo, mais vivo do que se estivesse em minha frente... Tua presença é forte em cada momento de meus dias, especialmente quando escrevo... Gosto de pensar em ti nessas horas, no teu riso cínico, teu olhar profundo, dolorido, por vezes louco, outras calmo, triste, aniquilado... Muitas vezes Caio, sinto tua presença linda, às vezes tenho medo, outras, simplesmente escrevo e deixo que fique ali ao meu lado. Minha nossa Caio! Vão pensar até que ando vendo coisas, sou espírita e não sei mais o que. Mas não é nada disso, a forma como te sinto nada tem a ver com visões espíritas, mas visão de coração...
Pois é meu bom mestre! Sinto tudo isso, mas não conheço tua voz, nunca ouvi... Mas hoje vou ouvi-la... O café foi servido, tomado e nada... Até que de repente lá estava... Uma voz rouca, pausada, um tanto cansada. Fiquei em silêncio, agachada sobre o rádio, ouvindo, rindo, parecia tão distante, mas era bonita, falavas de Santiago, da saudade, dizia que veio para curar seu coração que estava doente. Falou de Aids, mandou mensagens, lembrou o mundo. Ouvi tudo isso, mas eu queria mesmo era conhecer tua voz... Tuas vontades e medos já me eram familiares...
O tempo foi pouco, mas valeu, fiquei com o som profundo daquela voz aveludada, cheia de medo e experiência. Vê Caio, ele, o radialista, o Jones, entendeu que hoje, sete anos após sua morte querias falar, queria que o ouvissem. Lembras dele Caio Fernando Abreu? Tenho certeza que sim, afinal ele é um artista, um sonhador como nós.
Sinceramente Caio! Tua voz é feia... Mas seu significado é sublime. Voz de anjo sofredor...

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