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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Texto de hoje

Atrás da alface

O cheiro de lavanda invade o ar. Luzia aspira contente. Enfim a casa estava brilhando. Aliás, era sempre assim, a pequena casa - sala-cozinha-banheiro- estava impecável. Ali não era permitido um grão de poeira. Limpa e vazia eternamente à espera de alguém. A porta branca, só via Luzia entrar... Tudo brilhando só para ela....

Mas naquele dia Luzia estava contente: ele olhou diferente para ela. Tinha um jeito especial. Será? Quem sabe? Até perguntou se ela estaria em casa por volta das nove horas. Seu corpo tremia, mal pode passar no mercado. Sim, ele poderia ir e ela precisava deixar tudo em ordem. Comprou cera, detergentes e mais uma série de produtos de limpeza. Queria tudo limpinho. Quem sabe um jantar especial? Sim, era preciso escolher carnes, legumes, frutas... Era boa cozinheira, prendada.

A tarde estava agitada, o movimento era intenso na rua. Luzia vinha cheia de pacotes. Não percebia o cabelo despenteado e sem corte, as unhas mal feitas, as roupas fora de moda e velhas, o corpo sem curvas, a pele branca e cansada. Não percebia o rosto envelhecido, agora parcialmente coberto por grande pé de alface que teimava em sair da sacola plástica. Ninguém a olhava era invisível a pobre moça.

Quase nove. Agora Luzia aspirava, sentia o perfume da lavanda misturado com o cheirinho gostoso da bela lasanha que havia preparado. Tudo perfeito. Ele deveria chegar a qualquer momento. Passou as mãos cheirando a cebola nos cabelos cheios de fios brancos, sorriu, achava que estava linda. Mas como poderia estar linda se nada fez para se arrumar? Não tinha nem se quer um batom, uma roupa mais atraente... Ninguém se importava com ela. Era uma mulher sozinha. Tinha mais de quarenta anos. Era eficiente, quebrava o galho para todo mundo no escritório. Reservada, tinha ataques de mau humor...

Pobre Luzia era uma forma de se defender da tristeza que era sua vida.

Apaixonada por José chorava todas as noites agarradas ao travesseiro de esponja dura, seu único confidente. José era um homem bonito, advogado reconhecido, e Luzia sua secretária e velha amiga, mas agora tudo poderia mudar. Ele disse que iria a sua casa.

Nove horas. A campainha tocou. Luzia paralisou. Seus olhos se encheram de lágrimas. Sim, era ele. Correu para a porta, abriu e lá estava José com um buquê de rosas vermelhas. Luzia quase desmaiou. Não conseguia falar. Com um brilho diferente nos belos olhos azuis, José entregou as flores dizendo: “Luzia, quero que entregue esse buquê à Sofia. Estou apaixonado e amanhã falarei com ela”.

Sofia, a linda sócia de José, morava no prédio em frente.

É isso aí! A lasanha esfriou, o perfume de lavanda morreu e Luzia ficou cada vez mais amarga. O travesseiro de esponjas continuou sendo seu único consolo, a rosa seca ao lado da cama uma lembrança de um único momento de ilusão.

Luzia esqueceu que era mais importante que uma casa, que um escritório, falsas amizades, quereres...

(autor: Ieda Beltrão)


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