

Rosas: essa é a primeira visão que temos ao chegar numa bela residência no distrito de Faria Lemos. Além dos lindos roseirais, parreirais cercam o local como a proteger as duas pessoas especiais que ali vivem.
Ele é Elisio Jose Cartelli, de 85 anos, de gestos tranquilos, olhar carinhoso e cheio de lembranças. Ela é Alina Rosa Tancini Cartelli, de 82 anos. Uma mulher sorridente, gestos amplos, voz clara e decidida. Num primeiro momento parecia um tanto brava, mas bastou algumas palavras para que seu rosto adquirisse um ar sapeca de menina.
Foi numa grande varanda, sentados em volta de uma mesa de madeira, que ouvimos as muitas histórias vividas por esse casal que há 60 anos estão casados.
O primeiro a começar a falar foi Elisio que lembrou do dia em que conheceu Alina. “Uma menina linda, vi ela de longe, carregava garrafas de leite. Daquele dia em diante sabia que iria me casar com ela”, suspira.
Já Alina,ficou com o rosto corado ao lembrar do lindo rapaz recém chegado de Guaporé. Sem muitos rodeios, ela conta que era muito jovem, tinha apenas 16 anos, quando se apaixonou por Elisio. “Nunca fui namoradeira, naqueles tempos as coisas eram muito diferentes, mas sabia que tinha encontrado meu grande amor”, diz com voz saudosa.
Foram seis anos de namoro e no dia 12 de março de 1949 eles casaram na Paróquia Cristo Rei de Bento Gonçalves, abençoados pelo Padre Rui Lorenzi. “Ali começou nossa história de luta, trabalho e amor”, salientou Elisio.
A vida não haveria de ser fácil para o jovem casal, era preciso trabalhar para formar uma família sólida. Os primeiros anos tornaram-se difíceis. Foram morar em Santa Catarina, trabalhavam em uma fazenda. “Lá nasceu nossos primeiros filhos, eram gêmeos, um não resistiu e acabou falecendo”, lembra Alina. Para quem morava no interior as dificuldades eram maiores, tudo ficava longe, desde comércio ao atendimento médico.
Mesmo assim eles seguiam trabalhando na lavoura, até que veio o segundo filho e junto a decisão de voltar para Bento Gonçalves. “Comecei a trabalhar com meu sogro, aqui em Faria Lemos, e aos poucos construímos nossa vida. Foram anos de muita luta”, contou Elisio.
Onde atualmente se vê imensos parreirais, havia somente mato. Alina e Elisio são da geração que transformou as montanhas da hoje Capital do Vinho.
E o amor? A pergunta foi para os dois. Mas foi Alina que respondeu primeiro: “Ficou mais forte, mais maduro. Viver junto exige paciência e respeito e isso sempre tivemos um pelo outro”, ensina. Para Elisio, a coragem da mulher, a capacidade única de não se abater e seguir em frente mesmo diante das dificuldades foi essencial para que até hoje exista esse elo tão forte entre os dois: um elo chamado amor.
Foram sete filhos, todos criados e educados nas melhores escolas. A preocupação do casal era dar tudo aquilo que faltou a eles. “Queríamos que nossos filhos não passassem trabalho como nos passamos, e graças a Deus, eles estão bem. São nosso orgulho”, disse Elisio olhando com carinho para o filho Oli, de 53, que acompanhava a entrevista.
A costureira e o cabeleireiro
Além do trabalho na lavoura, Elisio desenvolveu uma habilidade reconhecida em toda a região, a de cabeleireiro. “Durante 40 anos cortei o cabelo de muita gente de Bento Gonçalves e região, até do bispo Benedito Zorzi”, conta.
Alina era conhecida pela habilidade em confeccionar calças e camisas. Hoje, aposentada, disse que nunca mais costurou. “Cansei, era um trabalho danado”. A velha máquina está na sala como um objeto de decoração.
Saiba (mais)
O casal teve sete filhos: Elmo, de 58 anos; Elides, 57; Elisabet, 56; Enio, 55; Eloi, 53; Edgar, 51 e Elias, 43. Todos com a inicial E. O motivo seria uma homenagem a Elisio? Alina apenas sorri numa afirmação silenciosa.
Curiosidades
- Elisio vivia com os pais em Dois Lajeados e 12 irmãos, quando a casa pegou fogo e eles ficaram com apenas a roupa do corpo. Para buscar recursos e recuperar os bens perdidos, ele e os irmãos tiveram que buscar trabalho fora.
- Alina é apaixonada pela lida com a terra, principalmente capinar, faz isso até hoje
- Paciência é uma virtude atribuída a Elisio; vitalidade a Alina
- Elisio gosta de cozinhar
- Alina detesta cozinhar
- Para evitar câimbras, Elisio come uma banana todos os dias
- Ele gosta de bocha, ela gosta de festa. Mas os dois gostam mesmo é de ficar em casa juntos
- Eles têm um mascote chamado “Negrão”, que consideram um grande amigo e cão de guarda
- O casal tem 10 netos e nenhum bisneto
- Caqui, bergamota, figo, laranja, banana e maça são as frutas preferidas dos dois
- Ele adora rosas, ela gosta de hortaliças e árvores frutíferas
- Alina disse que é bastante econômica
- Os dois adoram tomar chá à noite
Frases
“O dinheiro é importante, mas o amor precisa vir em primeiro lugar”
(Elisio)
“Toda roseira tem bonitas rosas, mas também tem os espinhos”
(Alina)